segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Brincar de Mudar o Mundo

O ABRAÇO DE EDGARD GOUVEIA JÚNIOR é quase sufocante. Não só pela força dos seus 2 metros de envergadura, mas também pela paixão que ele não consegue deixar de depositar nem nos mais simples gestos. Essa é a característica das pessoas que ele denomina "chamas": "São indivíduos que te incendeiam, te dão vontade de fazer acon¬tecer", explica. Na última década, Edgard tem se dedicado a despertar essa força nas pessoas. E testemunhado os feitos incríveis de que somos capazes quando nos unimos.
Começou em Santos (SP), sua cidade natal. Edgard e quatro colegas da faculda¬de de arquitetura queriam revitalizar o Museu da Pesca, então em ruínas. Envolveram no trabalho a comunidade do bairro, os amigos, arrecadaram dinheiro fazendo fes¬tas, conseguiram patrocínios... E o prédio foi reaberto, voltando a orgulhar a cidade.
Dessa experiência surgiu o Instituto Elos. cujo objetivo é transformar comunida¬des carentes por meio dos próprios moradores, impulsionados pela energia de jovens articuladores. Para formar essas "chamas", foi criado o curso Guerreiros Sem Armas. E, para colocar a metodologia em prática, surgiu o jogo Oásis, que já mobilizou milhares de pessoas em prol de diferentes causas. Jogo? Sim. Para o jovem Edgard, de 45 anos, só dá para mudar o mundo brincando. É sobre isso que ele fala na entrevista a seguir.
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Como foi a reforma do Museu da Pesca?
Edgard - A idéia surgiu de um grupo de alunos da faculdade. Eles queriam res-taurar o museu, mas teria de ser envol-vendo a comunidade nas decisões ar-quitetônicas e no fazer da reforma. Fui convidado a participar e aceitei. Come-çamos com cinco pessoas e terminamos com 100. O resultado foi tão bom que um grupo de estudantes e professores de arquitetura de países vizinhos veio para cá descobrir como a gente tinha conse-guido todo esse engajamento. Para expli¬car, criamos um curso de um mês, com jovens estudantes, que ia para dentro das comunidades diagnosticar os problemas e propor soluções conjuntas. Esse curso virou o Guerreiros Sem Armas.

E como é o Guerreiros Sem Armas hoje? Edgard - A gente escolhe uma comuni-dade desassistida e mapeamos seus re-cursos: os talentos humanos, os mate-riais, as instituições (uma serralheria. um mercado, uma escola...). O segundo pas¬so é conversar com as pessoas, estabe-lecer uma conexão afetiva. Perguntamos quais são os sonhos delas. É engraçado que a maioria pensa primeiro em bens materiais e individuais. Mas, então, a pes¬soa suspira, até muda o tom de voz e diz algo assim: "O que eu queria mesmo é que as crianças daqui fossem felizes".

E como se torna isso realidade? Edgard - Se o sonho é fazer as crianças felizes, a gente pensa um espaço em que isso pode se concretizar. Como um cam-pinho de futebol. Fazemos uma maque-te e então chega a hora do milagre: te¬mos de transformá-la em realidade em cinco dias. Para isso, buscamos doações, chamamos os amigos, contamos com a colaboração de parceiros na comuni-dade e nos arredores. Restos de madei¬ra que iriam para o lixo. por exemplo, podem virar parede de creche! Com re-aproveitamento, o entusiasmo é ainda maior. E quando o sonho vira realidade, a gente faz uma festa. Porque milagres têm mesmo de ser comemorados.

Quem pode participar? Edgard - Jovens que tenham a inquie-tude de mudar o mundo. São 30 dias de imersão, com treinamento e pales-tras. Mas, antes disso, há um processo seletivo de três meses, o que inclui uma formação para que o jovem possa cap¬tar por si mesmo o dinheiro para pagar o valor do curso, que é de 5 mil reais por pessoa. Uma menina, por exem-plo, conseguiu a quantia prestando ser-viço para uma empresa, com base nos conhecimentos que obteve na capaci-tação. A gente aceita pagamento pos-terior, parcela, faz qualquer negócio. E

quem não pode pagar ganha uma bol¬sa, porque dinheiro não pode impedir os jovens de se tornar guerreiros.
O que é o jogo Oásis? Edgard - É a forma mais ágil e barata de disseminar nossa metodologia. O me¬lhor exemplo aconteceu em 2009. San¬ta Catarina ainda sofria com as enchen-tes do ano anterior, e, para ajudar a levar esperança e reconstruir as cidades, deci-dimos lançar um desafio aos jovens que haviam participado do Guerreiros Sem Armas daquele ano. Gente de todo o país comprou a idéia e se juntou a eles. Mon-tamos uma plataforma grátis, pela inter¬net, em que as pessoas poderiam se ins-crever, em grupos. Como numa gincana, cada time devia mobilizar pessoas e cap¬tar recursos para bancar sua ida a San¬ta Catarina. Os melhores foram para lá. onde participaram de uma formação de dois dias. Depois, as equipes se dividi-ram e foram atuar em 12 comunidades de seis cidades. Em cada uma delas, des-cobrimos o sonho coletivo e tivemos cin¬co dias para colocá-lo em prática.
Dê um exemplo desses sonhos. Edgard - Uma ponte! Disseram que era impossível, mas a comunidade fez em apenas um dia, tirando dúvidas com en-genheiros de outros times pela internet. Em cinco dias, construímos 43 equipa-mentos comunitários. E os Oásis foram se expandindo. Nos quatro meses se-guintes, foram 90, espalhados pelo Bra¬sil e pelo mundo: Peru, Dinamarca, Suécia, Zimbábue, China, índia...
Então, dá mesmo para mudar o mundo brincando?

Edgard - Claro! Na verdade, é a única maneira. Só brincando somos capazes de voltar a ser crianças, nos despren-der dos preconceitos e ativar o que há de melhor em nós mesmos para jogarmos juntos. Se você chama os amigos para trabalhar, fica difícil. Mas chamar para brincar é muito melhor, né? ®

sábado, 30 de abril de 2011

Curso para o CRC

Estamos organizando o curso preparatório CRC presencial para a prova de Suficiência do CRC. A previsão é de duas turmas para esse ano de 2011.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A era do Inconcebível - Joshua Cooper Ramo

Estou lendo esse e até o momento, um pouco infeliz com o andar do livro. Em última instancia, um livro que diz que não existem certezas tem pouca valia. É claro que não existem. É claro que os modelos são todos simplificações e vezes diversas a realidade vai "fugir dos modelos e nos surpreender". Mas ai prefiro Borges "O Mapa não é o território" ou Wittgenstein "O mundo é tudo o que é o caso".

domingo, 13 de junho de 2010

sábado, 1 de maio de 2010

Orquidea em itatiaia...


Nada como o lugar certo com o clima certo...

sexta-feira, 2 de abril de 2010

LIVRO: Previsivelmente Irracional

LIVRO: “Previsivelmente Irracional”

CAPÍTULO 1: A verdade sobre a relatividade

O autor explica que a relatividade tem influência no processo de decisão a partir do momento em que se utiliza um chamariz para ser, conscientemente ou não, uma referência para comparação do objeto em questão.

O denominado chamariz é, na verdade, uma terceira opção com quesitos inferiores à da opção que se quer oferecer.

Ele cita também que existe uma propensão a fazer comparações com referências próximas ao objeto em questão, similares.

Como exemplo ele cita a campanha da The Economist, em que se oferecem três tipos de assinatura da revista, sendo: uma opção somente de acesso à internet num valor com desconto e as duas opções seguintes no mesmo valor, sendo que a segunda somente na versão impressa e a terceira com acesso à internet e versão impressa. O que se quer demonstrar é que, com duas opções de valores similares, mas com benefícios diferentes e uma delas podendo ser considerada inferior, a pessoa se sente predisposta a aceitar a proposta similar mesmo com preço superior.

Outro exemplo dado é o de que uma pessoa é capaz de andar por 15 minutos para economizar $7,00 quando vai comprar uma caneta que vale $25,00, mas o mesmo não ocorre quando se quer economizar o mesmo valor na compra de algo que vale $455,00. Isso acontece pela disposição inicial de gasto em cada compra.

CAPÍTULO 2: A falácia da oferta e da procura

IMPRINTING: processo no qual as decisões iniciais são feitas com base no que está disponível no ambiente. Isso quer dizer que as primeiras impressões e decisões ficam registradas em nosso cérebro.

ÂNCORA: Quando se encontra um produto, se aceita o primeiro preço que vê na frente.

COERÊNCIA ARBITRÁRIA: Embora os preços iniciais sejam “arbirários”, depois que se fixam na mente, eles não definem somente os preços atuais, mas também os preços futuros.

Com bases nas definições acima o autor embasou suas análises para avaliar o comportamento em determinadas situações. Utilizando um número aleatório, no caso os dígitos finais do seguro social dos pesquisado, foi realizado um teste no qual os pesquisados definiriam valores a determinados produtos. A conclusão foi que, existindo uma referência, os mesmos precificaram os produtos de acordo com altura dos referidos dígitos, o que comprovou sua teoria de que os preços iniciais são, em grande parte “arbitrários” e podem ser influenciados por respostas a perguntas aleatórias mas que, uma vez definidos na mente, esses preços são a base de referência para definir a disponibilidade para pagar em determinado produto e, também, o quanto se está disposto a pagar por produtos relacionados.

CAPÍTULO 3: O custo do custo zero

O autor comenta sobre a sensatez na escolha de produtos grátis. Mas, ao se comparar um produto grátis e outro produto a escolha talvez não seja tão acertada, pois existe o risco de escolher o que aparenta ter maiores benefícios para o bolso em detrimento à vontade que antecedeu a compra.

A escolha pelo “grátis” tem grande apelo emocional pois ele faz com que se esqueça o aspecto negativo da escolha e aparenta um valor imensamente maior do que o real.

O caso da Amazon é citado como exemplo. A oferta de frete grátis na compra do 2º livro era tão tentadora que o cliente escolhia o 2º livro memso sem interesse nele, somente obejtivando o desconto oferecido pelo “frete grátis”.

O “grátis” é algo muito poderoso.

CAPÍTULO 4: O custo das normas sociais

Existem 2 mundos com normas disitintas: um dominado pelas normas sociais e outro onde as normas do mercado fazem as leis.

No primeiro caso não existe a necessidade de retribuições imediatas, elas existem pela necessidade de se viver em comunidade. Já no caso das normas de mercado não existe cordialidade ou afetuosidade, é um sistema que gira em torno da troca de produtos, dinheiro ou benefícios.

Essas normas não se misturam, o que seria um problema, como exemplifica o autor, quando cita a diferença entre sexo no contexto social e sexo por dinheiro.

O questionamento sobre se a citação de “dinheiro” ou similares leva a comportamentos diferenciados foi analisado e concluiu-se que sim. Foi citado como exemplo uma creche em Israel, onde as normas sociais que abrangiam a tolerância a atrasos foram substituídas, inconscientemente, por normas de mercado que cobravam multas pelo atraso. O resultado foi negativo, pois as normas sociais geravam constrangimento quando infringidas, mas nas normas de mercado não, e davam a opção aos pais de poder atrasar ou não.

Com a diferença entre essas normas e citando outros exemplos, o autor conclui que o dinheiro é a maneira mais cara de motivar e que as normas sociais, além de mais baratas, na regra são mais eficazes também.

CAPÍTULO 5: A influência da excitação

Foram realizados estudos sobre a influência da excitação durante o processo decisório e conclui-se que a excitação influencia sim, as atitudes, ética e segurança da pessoa.

Ele cita que examinar um estado emocional estando em outro é difícil. Para tomar decisões com conhecimento de causa, precisamos passar pelo estado emocionla em que estaremos no outro lado da experiência.

CAPÍTULO 6: O problema da enrolação e do autocontrole

O autor considera que existem problemas de autocontrole sãorelacionados a gratificações imediatas e adiadas. Exemplificando: se não se consegue economizar parte do salário, é possível aproveitar a dedução automática da empresa direcionada a investimentos. Outra situação: se não se consegue praticar exercícios sozinhos, é possível assumir o compromisso de se exercitar com amigos.

Quanto ao tema enrolação, é citado que para impedir que isso aconteça é preciso cuidar da causa desse fato e não reclamar das consequências posteriormente.

Exemplo clássico disso são os cartões de crédito.

CAPÍTULO 7: O alto preço da posse

O autor cita a alta importância das posses individuais na vida das pessoas e as 3 idiossincrasias irracionais da natureza humana: o apego ao existente; o foco no que se pode perder e não no que se vai ganhar; e a suposição de que os outros vão encarar a transação pela mesma perspectiva que a nossa.

A posse é um sentimento que causa dificuldade em votlar atrás em decisões, ela muda a perspectiva da pessoa que o possui.

CAPÍTULO 8: Manter as portas abertas

As opções desviam o foco no obejtivo principal.

Exemplo clássico disso é o caso do comandante chinês Xiang Yu, que incendiou os navios durante o pernoite dos soldados às margens do rio. Ele explicou aos soldados que a ausência de opções os faria lutar sem apego ao que poderiam escolher abrir mão ou não.

Ele alerta que o impulso irracional de perseguir opções se deve a abundância de oportunidades.

Ele conclui que o foco é essencial e que a compulsão irracional das oportunidades atrapalha na avaliação das situações.

CAPÍTULO 9: O resultado das expectativas

Quando se acredita que algo será bom, provavelmente se prova verdadeiro. Da mesma forma, quando se prevê algo ruim, também acontece, ou seja, as expectativas influenciam quase todos os aspectos da vida.

O conhecimento prévio modifica a percepção de quem foi influenciado. Isso também tem influência no fato de estereotipar.

O autor afirma que é preciso ter em mente que todas as pessoas são tendenciosas, mesmo não sendo possível estereotipar e/ou analisar conceitos pré-definidos.

CAPÍTULO 10: O poder do preço

Continuando o que é explicado no capítulo anterior, as expectativas colaboram no resultado positivo ou negativo da situação.

O que foi exemplificado na precificação de remédios e sua influência na eficácia esperada. Foram usados remédios “placebo” para confirmar que muito da eficácia são efeitos psicológicos.

CAPÍTULO 11: O contexto do nosso caráter: Parte 1

Por que somos desonestos e o que podemos fazer a respeito.

Nesse capítulo o autor questiona que, se a honestidade é tão importante, por que as pessoas são tão desonestas com tanta frequência?

Ele conclui que as pessoas se preocupam com honestidade quando querem ser honestas. Ele afirma que só existe a preocupação com ela quando a situação detrangressão é grande, mas quando é uma situação de pequenos “delitos”, ela nem é levada em consideração.

Ele pondera que é preciso reconhecer que quando se está em uma situação onde os benefícios particulares se opõem a padrões morais, existe a tendência a “dobrar” a realidade, ou seja, uma situação onde existem interesses egoístas e possibilidade de ser desonestos.

CAPÍTULO 12: O contexto do nosso caráter: Parte 2

Por que lidar com dinheiro nos torna mais honestos.

O autor explica que a natureza humana é preocupante. Apesar da consciência sobre ética, bondade, entre outros, ninguém é imune à cegueira parcial provocada pela própria mente. Essa “cegueira” pode passar por cima dos próprios padrões morais para obtenção de compensações financeiras.

É preciso reconhecer essa propensão à desonestidade para manter sobre controle essa posibilidade.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Ricardo Amorim

Ainda não encontrei o site do Palestrante Ricardo Amorim. Só essa forma de contato. Alguém conhece?

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Sobre a ANPAD

MENSAGEM DA PRESIDÊNCIA
O desenvolvimento da ANPAD em seus pouco mais de 30 anos de existência tem sido notável. A trajetória é de meia centena de trabalhos em seus primeiros eventos até cerca de 5 mil nos dias atuais. Esse montante está distribuído em cinco encontros anuais: o EnANPAD, que congrega todas as áreas de conhecimento da Associação, e quatro eventos específicos de divisões acadêmicas.
Não deixa de ser interessante observar que, em termos quantitativos, o crescimento do número de trabalhos submetidos foi contínuo até o ano de 2005. De 2006 para cá, as submissões estabilizaram em torno de 5 mil ao ano na soma dos cinco eventos. No que se refere ao EnANPAD, especificamente, as submissões vêm se situando, desde 2004, pouco acima de 3 mil trabalhos anuais. Neste ano foram submetidos 3.275, dos quais foram selecionados 909.
Ao que parece, essa estabilização está relacionada ao ritmo de expansão da pós-graduação stricto sensu em administração e contabilidade no Brasil. De meados dos anos 90 do século passado até 2006, o número de programas triplicou. Nos últimos três anos, a criação de novos programas tem sido incremental, como revelam os registros de recomendação de novos cursos pela CAPES.
A acomodação do montante de trabalhos nesses patamares também pode significar que o crescimento quantitativo está se fazendo acompanhar de evolução qualitativa. Não dispomos de indicadores objetivos para asseverar tal possibilidade, mas se considerarmos as avaliações realizadas nas diversas áreas de conhecimento nos campos de administração e contabilidade pode estar se verificando uma melhoria qualitativa dos trabalhos produzidos no país.
No entanto, por mais que esteja ocorrendo uma inflexão no sentido de evolução qualitativa dos trabalhos submetidos aos eventos da ANPAD, ela precisa avançar bem mais profunda e fortemente. Elevações constantes e substanciais do nível de qualidade dos trabalhos acadêmicos produzidos nos campos da administração e da contabilidade no país são necessárias e prementes. Tanto dos trabalhos em processo de construção, que são aqueles preparados para apresentação em congressos acadêmicos, como dos artigos publicados em periódicos científicos. Não se deve esquecer, também, de livros e capítulos de livros.
Qualidade, que sempre deve ser crucial, é a palavra-chave do atual momento de desenvolvimento da produção científica brasileira. Cada um de nós, autores de trabalhos científicos, precisa refletir nessa direção, ainda que a preocupação com qualidade implique diminuir quantitativamente a nossa própria produção de obras acadêmicas. Não há sombra de dúvida de que é preferível produzir menos com mais qualidade. Devemos mudar o conteúdo de nossos questionamentos aos nossos colegas, ou seja, não mais perguntar quantos trabalhos produziram em determinado ano ou período, mas sim se eles e a comunidade acadêmica estão satisfeitos com a qualidade de suas obras científicas.
Em suma, se produziram porque tinham algo a dizer e não, pura e simplesmente, optaram por acumular quantidade. Aqui cabe uma observação relevante. Fala-se muito por aí que o quantitativo da produção científica em nossa área decorre de exigência da CAPES. A interpretação está claramente equivocada. A média trienal de produção científica requerida pela CAPES de cada docente é de 150 pontos, isto é, um único artigo publicado anualmente em um periódico classificado como de nível B2. Três artigos em um triênio, portanto, o que é bem razoável. Desse modo, o que parece efetivamente se verificar é que a cultura produtivista das áreas de administração e contabilidade leva a que nos preocupemos em publicar muitos artigos todos os anos, chegando, em alguns casos, a se contabilizar por dezenas. É equívoco não apenas de interpretação, mas, sobretudo, de consideração do que vem a ser qualidade científica.
Qualidade científica está relacionada com a avaliação. E avaliação de trabalhos acadêmicos vem sendo já há muitos anos o calcanhar-de-aquiles não só dos eventos científicos promovidos pela ANPAD, mas também dos periódicos científicos em nosso país. Há vários fatores que interferem na avaliação de artigos científicos. Gostaria de chamar a atenção para três deles, que estão intimamente relacionados: consciência, competência e disponibilidade.
Consciência tem a ver com a dimensão ética de se considerar corresponsável pela comunidade acadêmica de que faz parte. Como tal implica atuar de maneira dedicada e responsável pelo desenvolvimento dessa comunidade. Significa integrar uma rede de relacionamento com pares, colhendo tanto os benefícios como aceitando os encargos decorrentes. Quem é possuidor dessa consciência está aberto para realizar um trabalho de avaliação sério e comprometido, em razão do respeito que nutre pelos seus pares e pela comunidade acadêmica de pertencimento. A preocupação fundamental é com a evolução contínua da qualidade da produção científica em seu campo de conhecimento e aplicação.
Competência tem a ver com a capacidade de se reconhecer como um profissional que possui certo nível de maestria, mas que não se coloca em um patamar inatingível. Como não se considera dono da verdade, está continuamente aberto para aprender como avaliar melhor os trabalhos científicos que lhe chegam às mãos. Em decorrência, considera importante trocar ideias com os seus pares sobre critérios de avaliação e sobre a maneira de utilizá-los. Entende que a discussão desses critérios possibilita a sua evolução como avaliador, uma vez que considera a atividade de avaliar como um processo recorrente de aprendizagem. Valoriza diferentes interpretações da realidade, desde que elas atendam, consistentemente, à prática científica em conformidade com suas diversas acepções e possibilidades.
Disponibilidade tem a ver com o tempo necessário para realizar a atividade de avaliação de trabalhos científicos. Em um país como o Brasil, em que acadêmicos fazem de tudo um pouco, a disponibilidade usualmente é precária. Os pedidos de avaliação são numerosos e o tempo é escasso. Contudo, alguém já disse que ter tempo para realizar uma tarefa é uma questão de escolha. Como tal, passa a ser algo que se deve saber como tratar com base no que se valoriza. Os três fatores acima, adequadamente considerados, remetem à importância que é preciso atribuir ao processo e aos resultados da produção científica brasileira em administração e contabilidade. É absolutamente necessário o exercício da crítica à nossa produção científica no atual estágio de desenvolvimento da comunidade acadêmica nacional. Não é mais possível adiar o uso e a análise da nossa produção nas atividades de ensino e pesquisa no país. A publicação de artigos em periódicos nacionais e estrangeiros precisa conter citações de autores brasileiros. É indispensável que nos conheçamos melhor e que nos façamos conhecer além das nossas fronteiras territoriais e intelectuais. Marcar posição como comunidade acadêmica requer o nosso próprio reconhecimento de que somos uma comunidade acadêmica.
Nesse sentido, as mudanças realizadas na lógica de funcionamento das divisões acadêmicas da ANPAD visam a propiciar maior envolvimento dos integrantes da nossa comunidade tanto na avaliação como no uso cotidiano desse conhecimento. A adoção de temas de interesse, além de facilitar a avaliação de trabalhos científicos, deve auxiliar, com o decorrer do tempo, a formação de redes de relacionamentos nos diversos campos de conhecimento da administração e contabilidade.
Na linha de qualquer mudança complexa, a lista de temas de interesse vai precisar sofrer ajustes com o transcorrer do tempo: alguns temas serão mantidos na forma como estão, outros serão aperfeiçoados, outros vão desaparecer e ainda outros vão emergir. Além disso, a adição de descritores para cada tema de interesse, a partir dos eventos de 2010, vai auxiliar o nosso entendimento tanto para submissão de trabalhos como para a escolha de avaliadores que possam atuar de forma cada vez mais consistente.
É preciso considerar a possibilidade de tornar factível a realização de workshops para avaliadores de trabalhos científicos. Com base no entendimento de que avaliar é um processo recorrente de aprendizagem, oficinas de trabalhos podem ser interessantes para o seu aprimoramento. A simples troca de informações sobre o entendimento de cada um dos itens da ficha de avaliação já pode significar um bom passo em direção ao aperfeiçoamento de uma atividade tão criticada, mas, efetivamente, pouco debatida.
Nesse sentido, uma primeira iniciativa para o avanço do nível de qualidade da avaliação de trabalhos acadêmicos pela via democrática de participação e envolvimento já está sendo propiciada com a alocação das quartas-feiras nos EnANPADs como locus de troca de ideias e de debates. Entendemos, obviamente, que o processo de aprimoramento da avaliação de obras científicas é gradual, difícil e requer o envolvimento da comunidade mediante participação comprometida nas Divisões Acadêmicas da ANPAD. Todavia, é inadiável.
Para finalizar esta mensagem, gostaria de agradecer, em nome da Diretoria da ANPAD, a todos aqueles que contribuíram para a realização do evento. Nessa linha, cabe especial destaque aos coordenadores das Divisões Acadêmicas, membros dos Comitês Científicos, líderes de temas, avaliadores de trabalhos e autores pelo denodado esforço em direção ao aprimoramento das ciências administrativas e contábeis no Brasil. Como já disse em outra oportunidade, uma comunidade acadêmica é forjada na labuta séria e cotidiana de muitos e demanda tempo para que se alcancem patamares de excelência.

Clóvis L. Machado-da-SilvaPresidente da ANPAD